A performance dos fãs no relacionamento afetivo e simbólico

A monografia de Santos discute sobre os comportamentos de histeria gerados por fãs, mais especificamente do grupo Backstreet Boys. Com o passar o tempo, o fã deixou de ser um simples admirador, e passou a ser alguém com a capacidade de causar algum mal, onde podemos ter como exemplo dessa idolatria o fã que assassinou John Lennon.

Além dessa associação, os fãs também são vistos e conhecidos como pessoas influenciáveis pela mídia, que possui atitude extrema, doentia e de grande histeria caracterizada na maioria das vezes pelo publico feminino que deseja estar perto do ídolo . Além de conhecer mais afundo sobre o artista, também desenvolve sua criatividade inventando e trazendo novos artefatos com diferentes significações e simbologias a partir do objeto de adoração.

A mesma febre que iniciou com beatlemania nos anos 60, já via o modo como os fãs participavam como parte do show onde anos depois pelas características semelhantes o fenômeno, foi renomeado nos anos 90 como backstreetmania por suas fãs causarem o mesmo comportamento nas apresentações da banda. Já nos anos 80, os fãs acabaram deslegitimados por seus artefatos de adoração acabarem virando massivos. Nessa mesma década, iniciaram-se estudos culturais nos EUA e Inglaterra a respeito dos fãs e seus objetos de adoração, onde detectaram que esses objetos e acontecimentos são recriados de diferentes maneiras que foram vistas como um modo de diferenciação pelos teóricos.

Na década de 90, deu-se inicio a um novo fenômeno, as Boys Bands. Essas bandas eram formadas por garotos que tinham presença de palco, mas que não tinham talento musical, eram animadores de platéia. Em 93 em Orlando na Flórida surge os Backstreet Boys, arrastando milhares de fãs com suas musicas românticas e coreografias. Através do comportamento observado a partir das praticas realizadas pelas fãs como gritos, choros, histerias e até desmaios é que iniciou-se o questionamento do que as levava a tomar certa atitude. Analisando assim o discurso da mídia, da academia e das próprias fãs, onde a pesquisadora optou por estar insider, para ter um melhor posicionamento, por ela também ser uma fã da banda, promovendo assim uma analise diferenciada.

O que a autora busca é poder demonstrar uma maneira menos óbvia, embora nada sutil, de participação e que, até hoje, é vista sob uma série de estigmas e estereótipos, se mostra de extrema importância uma vez que estes fenômenos tendem a se repetir, com maior ou menor intensidade, ao longo da história da música pop.

O que aperfeiçoou a pesquisa, foi o fato do grupo Backstreet Boys ter se apresentado no Brasil, o que possibilitou uma observação mais qualificada em relação ao modo com que as fãs mobilizavam-se para prestigiar seus ídolos. A adolescência é vista como uma fase de mudanças, onde consideram o jovem alguém incapaz de controlar suas emoções, e, além disso, são vistos como nocivos, toda essa explosão de mudanças caracteriza também a comunidade de fãs entrevistada por Santos, onde as meninas são maioria, onde possuem de 13-20 anos de idade. Ressaltando que a comunidade não mede esforços para ter contato com seu ídolo, exercendo praticas extremistas.

As características vindas a partir da puberdade, tornam a ligação adolescente/fã interligadas. Onde temos como exemplo pessoas que deixam a adolescência juntamente com seus gostos formados nela, enxergando como um amadurecimento, já outras fãs deixam o exagero de lado e passam a admirar o ídolo como pessoa. E também tem aquelas que ainda são fãs apresar de adultas, essas são chamadas de adultescentes. Segundo Santos , em outras palavras, o que diferenciaria tanto o fã do admirador como o adolescente do adulto seria o controle sobre as próprias emoções.

Existem basicamente dois estereótipos na abordagem psicanalítica das atividades do fã: o indivíduo solitário e obsessivo e amassa histérica. Essas duas imagens refletem a dualidade entre masculino e feminino enraizadas na sociedade. O homem é sempre associado à racionalidade e a mulher à emoção, representando, respectivamente, um pólo positivo e outro negativo do tecido social. Além de ser considerada influenciável e exagerada, a mulher é vista como desprovida de individualidade e , por isso, teria uma tendência maior a se “dissolver” na massa, que forneceria as condições mais favoráveis para que sua voz pudesse ser ouvida (HUYSSEN, 1996).

Essa histeria foi muito comentada e divulgada pelas mídias, a partir da primeira vinda do grupo ao Brasil. A banda que lançou 7 álbuns entre 1996 e 2009, sempre fez questão de ser considerada um grupo vocal, rejeitando o termo Boy Bands que era dado as bandas que faziam animação de platéia, e que não tinham nenhum talento artístico.

No dia 20 de novembro estava marcado o desembarque da banda no aeroporto Tom Jobim, no Rio. A recepção calorosa feita pelas fãs assustou os integrantes, que após uma chegada dificultosa, apresentou-se por 15 minutos. Essa apresentação rápida repercutiu positivamente, pois muitas fãs assistiram, mas negativamente elas extrapolaram sendo alvo de noticiários da mídia e ficando marcadas por suas atitudes de descontrole emocional como também inconseqüentes. Uma das notas publicadas na Folha online dizia: Ficaram histéricas.(...)Várias fãs se atiraram no chão diante do ônibus que levava o grupo.(...) “É uma loucura. É como se quem estivesse aqui fosse o presidente ou o Michael Jackson, não os Backstreet Boys” disse um dos integrantes da banda, Howie Dorough, depois de ver as fãs se aglomerandona rua. Já Brian Littrell disse: “Foi assustador. Fiquei com medo de alguma daquelas fãs se machucar seriamente” (FÃS, 2000)

Após a primeira visita ao Brasil, as fãs acabaram criando uma imagem negativa, por serem tão fanáticas e pela sociedade automaticamente cirar esses estereótipos . Já a banda busca enfatizar através de letras, e clipes a importância que elas possuem para dar continuação a banda. Assim como deixam claro que sabem dos esforços feitos pelas fãs para chegar até eles. Já as fãs acreditam que esse esforço foi o que trouxe a banda no ano de 2008.

Deve-se considerar também que se, por um lado, os excessos das fãs podem ser tratados pejorativamente, por outro eles são indicativos da importância daquele artista ou obra para aquelas pessoas. Independente do que pode mover cada uma das fãs (as músicas da banda, sua capacidade vocal ou, simplesmente, o apelo visual e sexual de seus integrantes) o investimento afetivo só se justifica mediante oreconhecimento de que aquele artefato é digno de receber este afeto. O excesso éparte do processo de legitimação deste produto (GROSSBERG, 2001).

O fator simbólico aparece na medida em que uma fã passa por diversas dificuldades para ter acesso ao ídolo, e a partir disso é dada a distinção de uma fã verdadeira ou não. Não só a midia busca os depoimentos mais exagerados, mas no próprio universo do fa ele passa a ter maior reconhecimento caso tenha enfrentado as maiores dificuldades, tendo assim maior reconhecimento. Esses esforços feitos pelas fãs as proporcionam destaque e influencia por estar utilizando códigos dos membros da comunidade.

Segundo a classificação de Simon Frith(1996), os processos de produção,circulação e consumo musical se dividem em três fases históricas: o estágio
folk , no qual a música é executada diretamente de um artista para o público (músicapopular), o estágio artístico, no qual a música pode ser armazenada através denotações e partituras (música erudita) e, finalmente, o estágio pop, no qual a músicaé armazenada em fonogramas e executada mecânica ou eletronicamente para oconsumo de um público extremamente amplo (ou seja, massivo)

A distancia que separa o fã do ídolo sempre está sendo cada vez mais desafiada através dos meios digitais, segundo Santos, deste modo a distância não poderia ser vencida, apenas momentaneamente diminuída, pois sem ela o fenômeno da idolatria perderia o sentido. Essa distancia pode ser momentaneamente diminuída através de pacotes adquiridos em shows chamados meet & geet, onde os fãs tem a oportunidade de tirar uma foto e conseguir um autografo. E além disso ainda promovem festas após os shows. Dessa forma, as fãs adquirem e investem nesses serviços como uma maneira de estar mais próximas de seus ídolos.

Já as novas tecnologias apesar de serem ótimas opções de manter um contato com o ídolo, sabendo que é ele quem responde através da web cam, acabaram substituindo a maioria dos objetos como fotos, pôsters, revistas e reportagens, gravações VHS, entre outras. O fã acabou reestruturando-se e hoje guarda apenas objetos exclusivos relacionados ao grupo, pois pode acessar todas essas informações e vídeos por canais conhecidos hoje. E outra maneira atrativa para os fãs é que a banda filma o seu dia-a-dia como ídolos, coisa que antes nunca seria possivel. Hoje para a alegria das fãs os backstreet boys possuem twitter, e interagem com as fãs, essas acabam capturando a imagem da tela e exibindo para todos como se fosse um autografo, ou até mais importante que isso.

A reação negativa que ocorreu na ultima vinda da banda ao Brasil, fez com que as fãs buscassem uma mudança, mostrando que não eram aquilo que estavam dizendo. A partir disso houve mudanças nelas que puderam ser observadas na comunidade de fãs. Onde nove anos depois, elas mesmas notaram e puderam reconhecer suas mudanças.

A idéia de tática versus estratégia (DeCERTEAU, 1994) nos permite observar a mudança de comportamento por parte das fãs sob a perspectiva de uma disputade poder simbólico. Segundo DeCerteau, táticas são próprias de grupos subordinados e que, portanto, não detém o poder ou um espaço definido. Já estratégia é algo próprio dos grupos que detém o poder pois demandamferramentas, tempo e território. As táticas ocorrem no terreno inimigo, devem ser assertivas e em certa medida agressivas, pois dispõem de menos tempo para ser executadas.

Deste modo Santos não só se considera inserida na categoria de acadêmica/fã como procurou utilizar da posição outsider na comunidade estudada a fim de buscar diferentes olhares que um pesquisador insider dificilmente teria.

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