Em sua dissertação de analise sociológica e filosófica, Adriana Amaral discute sobre as construções e desconstruções estéticas que tiveram seu inicio a partir das novas tecnologias utilizadas pelos artistas contemporâneos, e que são refletidas através dos fãs. Essa ruptura contemporânea estética marcada pelo seqüenciador, sampler e sintetizador é por exemplo como a ruptura e as mudanças ocorridas a partir do anos 50 com a inclusão de guitarras no folk e no blues, cuja alterações ocorreram de maneira irreversível e marcante.
Toda essa construção da sociedade do espetáculo tem seu foco na mídia que é sua principal vitrine. Deboard(2000, p.18) afirma que “quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se em seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico”. Todas essas transformações sociais e culturais estão exemplificadas em filmes e videoclipes onde os acontecimentos atuais fundem-se com os tormentos dos artistas, formando um vínculo social com os fãs.
Essa mistura de sentimentos e emoções e tecnologia são visíveis no rock enquanto fenômeno social de manifestação cultural, onde todos esses elementos e ruídos que não desqualificam o estilo tornam mais interessante à construção da identidade cultural. O que pode ser refletido na frase de Wisnik que diz, o rock é a superfície de um tempo que se tornou poliritmico. Progresso, regressão, retorno, migração, liquidação vários mitos do tempo dançam simultaneamente no imaginário e nos gestuários contemporâneos, numa sobreposição acelerada de fases e defasagens.
A mídia e as tecnologias como formadoras de opinião agrega ao seu redor grupos com diferentes morais, éticas e objetivos, o que Nietzsche nomeia como rebanhos humanos, onde a consciência formal escolhe o que devem fazer ou não, diferente da noção de neotribalismo imposta por Maffesoli, onde afirma que os grupos sociais são formados a partir dos gostos escolhidos pelas pessoas, e não por obediência em fazer o que deve ou não, onde implica em estar junto pelo mesmo objetivo, desfrutar os bens do mundo.
A música é o elemento coordenador da sociedade, é o formador de valor estético e é por isso que os bens culturais de consumo como o rock and roll foi capaz de manifestar-se transcendendo os limites sociais, culturais e geográficos. Assim como o rock possui ligações no imaginário artístico, local e cultural o pesquisador é produto e produtor dessa cultura, pois segundo Maffesoli desde o nascimento o ser humano conhece não só por sim, mas pela tua família, tribo, cultura, sociedade, para elas, em função delas. E é através da mídia e das tecnologias de comunicação que essa arte estende-se pelo mundo todo, interferindo em outras culturas e construindo imaginários coletivos frutos da globalização, fazendo com que o mesmo produto esteja presente em cidades tão distintas.
Com a compreensão de espaço-temporal acentuou a volatilidade e a efemeridade dos valores e praticas estabelecidas na sociedade, assim como enfatizou a instantaneidade e a descartabilidade, um exemplo disso é a moda que pode ser comparada aos estilos dentro do próprio rock que segmentam-se, alternam-se em uma constante mutação.
Fazendo um restropecto para melhor entendimento da historia da banda irlandesa U2, Amaral busca exemplificar as raízes da cultura rock, que teve seu inicio nos anos 50 no período pós-guerra, espalhando suas sementes do movimento hippie na atmosfera cultural dos anos 60. Já a década de 70 marcada pelo consumismo, trouxe dois movimentos o punk e o disco que foram importantes na historia do rock e influenciaram a banda U2. Diferente do movimento hippie que ia a favor da paz e do amor, foi substituído pelo “faça você mesmo” do movimento punk que impunha atitude. Diferente do punk onde se caracterizavam com roupas pretas e com muita atitude a era disco caracterizava-se por um estilo mais descontraído utilizando roupas de discoteca e ouvindo um estilo musical mais contagiante e famoso por suas coreográficas, teve sua origem do soul tocado nas boates norte-americanas.
Com o consumismo iniciando nos anos 70, a acumulação de bens os locais de compra e suas mercadorias eram uma forma de distinção onde os consumidores passavam a criar vínculos e relações a partir desses objetos. Já nos anos 80 apesar da new wave, darks e headbangers terem dominado a cena da época, ser eclético era estar ao mesmo tempo em diferentes grupos, sendo considerados como o grupo dos “normais”. A partir desses acontecimentos que segundo Boudrillard, a historia começou a regredir, pois não surgiram novos movimentos como nas décadas anteriores, mas sim releituras de estilos passados como uma forma de reavaliação da cultura massiva, onde a aceitação da cultura pop e entre outras passaram a fazer parte de estudos culturais que continuam contribuindo para as avaliações desses fenômenos culturais. O que mudou foi as relações entre classes sociais e as formas de bens culturais já não mostram a variedade de culturas produzidas por diversas classes.
Por fim é possível observar que não só o rock transformou-se a partir de novos desdobramentos culturais, assim como tudo passou a se transformar e moldar-se a partir da mídia que cria a sociedade do espetáculo a partir da musica e da imagem que se transformam em paradigmas da contemporaneidade.
Dissertação U2 part I
10:27 |
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