A industria fonográfica e as mudanças ocorridas a partir de novas plataformas

O artigo escrito por Lima que tem como título Indústria fonográfica X Novas plataformas musicais - Trânsitos sonoros na era da Internet, discute sobre as mudanças ocorridas nesse meio e seus desdobramentos ao longo dessas transformações. Diferente da facilidade de lançar música nos dias de hoje, por usufruir das redes digitais livremente e adicionar nossas produções ou simplesmente compartilhar hits para que o mundo todo possa escutar. Já na década de 90 para que essa oportunidade de circulação musical fosse possível era preciso primeiramente ter um disco gravado, o que não era tão simples, mas quando o artista o tinha servia como o passaporte responsável pela divulgação de seu trabalho. Não bastasse o disco para fazer uma forte divulgação, mas sim suas vendas realizadas com ou sem sucesso acabavam por influenciar o publico que após adquirir esse objeto passava de um simples ouvinte a um fã e até um colecionador.

As principais mudanças que ocorreram ma indústria foi no sec. XX, quando as empresas passaram a dividir-se em produção e comercialização. Após isso houve um aumento do alcance dos produtos indo além do consumo nacional. Já na próxima década as empresas acabam deixando a desejar em relação a sua reestruturação que não soube trabalhar com o fato da crescente circulação da música na internet, downloads e no formato MP3. Onde consequentemente obtiveram resultados insatisfatórios, pois essas reconfigurações abalaram a hegemonia das gravadoras. O modo de consumo e a posição de fã também mudaram a partir da internet que encurtou as distancias possibilitando a interação de diversas maneiras com outros fãs e com seus ídolos, tornando publico o seu gosto por certo tipo de gênero. Esses nós de interação podem ser chamados de “plataformas” de circulação.

Com a existência da internet o que era analógico passou a apropriar-se para conteúdo digital, o consumo da musica medido a partir dos downloads passou a ser como o ranking de álbuns mais vendidos onde serve de parâmetro para remuneração de músicos tendo como exemplo disso o site Trama Virtual. Além disso, a internet serve de impulso para muitos artistas divulgarem seus trabalhos independentes na rede até antes de se lançarem na mídia e em shows. Em relação à indústria fonográfica nas plataformas digitais as majors vêm tentando ocupar esse espaço. mas já existe uma produção mais próxima do artesanal que cria reapropriações em escalas massivas, concorrendo no mesmo nível com o industrial. Enquanto essas mudanças físicas que trazem crises para as gravadoras o consumo de musica não deixa de existir, ao contrario ele prolifera-se cada vez mais por meio de aparelhos que não são apenas rádios, atualmente a musica está nos telefones, nas trilhas sonoras de games, nas rádios virtuais entre outras diversas opções;

Nesse contexto de profusão das opções de escuta, Michel Nicolau Netto constata que
as gravadoras e o desenvolvimento tecnológico, no caso da música, não mais pertencem a campos coincidentes, ou seja, a tecnologia não é mais apenas um meio de desenvolvimento da indústria fonográfica, mas também um espaço autônomo, capaz de gerar conflitos. (NICOLAU NETTO, 2009, p.135).

Com esse novo modo de consumo as empresas passam a pensar como ganhar dinheiro. Em 2003 a Apple criou o iTunes (loja virtual de venda de musicas mp3 pela internet), fazendo com que a industria fonográfica pudesse contabilizar as musicas na internet. Mas para garantir que essa musica não fosse copiada para outro suporte, ela era utilizado um sistema de segurança DRM (Digital Marketing Management), onde mesmo pagando não era possível compartilhar a musica, já a eMusic é uma empresa norte americana que permite a aquisição sem DRM.

O desejo de apropriação da musica e customização de álbuns já existiam antes com a gravações de fitas, CDs e DVDs . Hoje esse desejo resulta no grande consumo de musicas gratuitas oferecidas em diversas plataformas, que é o grande empecilho dos negócios de venda digital. Por mais que sejam barrados para a não utilização, sempre há arquivos em circulação, o que fica a critério ético do usuário baixar ou não. A partir de dados e avaliações do ano de 2010, o Relatório Música Digital 2011, da IFPI (International Federation of the Phonographic Industry), ressalta que “canais digitais representam agora cerca de 29 % das receitas globais das gravadoras, acima de 25 % em 2009. Em 2010, o setor global da música digital atingiu um valor estimado em $ 4,6 bilhões, cresceu 6% em relação 2009. A própria IFPI estima ainda que “as vendas de música digital seriam 131% maiores na ausência de pirataria”.

Hoje quem é responsável e recebe os lucros das musicas na internet são corporações de comunicação e entretenimento e não mais a indústria fonográfica que antes era quem dominava. Embora a industria fonográfica realize acordos pra que haja remuneração das musicas ela não determina e não tem mais o controle indireto do que chega aos ouvintes. O que também é muito superior comparado às lojas físicas é que na compra virtual há grande variedade de títulos, vinis, CDs, arquivos que antes não encontrávamos nas lojas por falta de armazenamento, o que não é problema nas lojas on-line, sem falar no impacto na diminuição de custos. Hoje as vendas físicas são lugares alternativos, mais direcionados ao publico especifico que buscam selos independentes, é esse pequeno publico que sustenta o estabelecimento. Já as lojas on-line a partir da primeira compra buscam mapear os gostos do consumidor e associam eles com os de outros consumidores, funcionando assim como sistema de recomendação gerado gratuitamente pelo usuário. O que pode ser exemplificado onde segundo Yúdice, os usuários são os que mais geram conteúdos na internet. Segundo a empresa de consultoria IDC, ‘são os responsáveis por 70% dos conteúdos gerados em 2006’, e se espera que essa cifra aumente.

As plataformas virtuais são responsáveis por dar a oportunidade de muitas bandas se promoverem e construírem sua imagem, pois além de tudo auxilia no retorno financeiro. Esse barateamento na forma de produção e circulação foi o responsável por criações musicais brasileiras como o tecnobrega no Pará e o arrocha na Bahia, que souberam tirar partido da pirataria física, atraindo publico para suas performances no palco. Essas criações independentes “como os não-hits são tão numerosos, suas vendas, embora pequenas para cada faixa, rapidamente atingem volumes consideráveis, e assim supera as marcas atingidas pelos sucessos massivos. Onde a circulação, e o interesse pelas musicas novas deram lugar a (re)descoberta de velhas gravações que antes eram inacessíveis por terem sido feitas por gravadoras menos sucedidas e até por perderem-se conforme o tempo.

O que podemos concluir é que a digitalização de toda a cadeia musical ocasionou grandes modificações na indústria musical e no modo com que passamos a consumir. Ouve maior oferta de produtos, incrementada inclusive pelas facilidades que a digitalização trouxe aos produtores independentes trazendo oportunidade de divulgação que não haveria nem pra metade dos que já foram beneficiados, tendo maior lucro em diversos sentidos, muitas vezes até mais que o próprio show. Os ouvintes também mudaram a passaram se apropriarem da musica de diferentes maneiras em diversas plataformas.
Por hora parece mais seguro do que fazer afirmações totalizantes, refletir sobre alguns casos significativos para as transformações na cultura musical, que, talvez, em um futuro de maior democratização digital, sirvam como documentos para compreender as transformações que a música vem tendo no início dessa nova era digital.

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