Distinção pelo “mau gosto” e estética trash

A partir das práticas e movimentações dos fãs da cultura trash, que tem como definição produtos que não atendem aos padrões dispostos pela sociedade, ocorreram entrevistas onde foram observadas questões subjetivas envolvidas nas praticas dos fas. Nessas praticas è possível ressaltar o quanto isso trás autenticidade e distinção cultural de produtos identificados como “baixos”, de cultura massiva, caracterizados pelo seu amadorismo, estética horrível e falta de noção de bom gosto, por meio de um processo que chamamos de “reciclagem cultural”.

O tema cultura trash relaciona-se com Paracinema, conceito desenvolvido por Sconce (1995), onde ressalta que não é apenas um conceito sobre filmes de um determinado grupo, mas também da leitura de audiovisuais feita de maneira especifica, e distintas maneiras de interpretação, onde sensibilidade estética valoriza todo tipo de “lixo cultural”.
Segundo a pesquisadora esse senso comum classifica a maioria desses filmes como de gosto duvidoso, ou, de maneira mais direta, toscos, bizarros, horríveis, asquerosos, assustadores. Pelo menos é essa a ideia presente no discurso dos próprios fãs. Imaginar que o público mainstream não aprova tais filmes é o elemento-chave para que estes possam ser cultuados.

A fim de aprofundar-se mais e materializar-se nas possíveis formas de apropriação, foram realizadas entrevistas com o publico trash, mais especificamente fãs de filmes de terror. Após a descoberta de uma comunidade no Orkut foi possível caracterizar mais especificamente esse tipo de publico como, jovem, de classe média e sexo masculino. O que mais agrada esse publico é o fato de que a audiência mainstream não curte o mesmo tipo de produto “inassistivel” assim tornam-se elementos chaves para que os fás da estética trash a venerem mais e mais. Para quem é fã desse tipo de produto considerado “inassistivel” não é vantagem alguma que esse tipo de consumo seja massivo. Podendo observar que esse se assemelha com o estilo camp, onde algo pode ser exatamente ruim pode ser bom.
Em A distinção: crítica social do juízo([1979] 2007) o autor, com base em dados levantados por pesquisas empíricas sobre padrões de consumo na França, nas décadas de 1960 e 1970, desenvolve uma complexa tese que salienta a centralidade do consumo nas práticas sociais. Até a ascensão da pós-modernidade, o gosto pelas formas culturais mais elevadas e valorizadas na sociedade sempre estiveram ligadas com acumulação de capital cultural , a partir disso criando hierarquias culturais e econômicas. Observamos então que o consumo da sociedade era determinante na época em que os bens eram ligados a dominação e submissão. Existindo três tipos de capital: o econômico, social e cultural, entre esses o cultural é o mais eficaz, pois revela a existência de status e posições na sociedade, mas essa idéia não é valida apenas a quem possui capital econômico, pois apenas isso não garante o capital cultural. Cultura, desta forma, é entendida como uma economia onde os indivíduos investem e acumulam capital. Da mesma forma que no mercado econômico, no cultural alguns gostos são mais valorizados que outros, e determinadas atitudes ajudam certos grupos a obter prestígio no convívio social(Castellano 2010).
O conceito capital subcultural, desenvolvido pela autora americana Sarah Thornton (1995), é semelhante ao cultural, porém utilizado em situações diferentes, onde o conhecimento não é apenas obtido e valorizado atraves do saber, mas também por sua desenvoltura em lidar com práticas relacionada a sociedade não considerada “normal” pelo publico mainstream . A forma como nos vestimos, dançamos, falamos, também são demonstrações de posse de capital subcultural. A participação exercida nessa comunidade necessita de conhecimentos sobre o que é cultuado pelo grupo como os principais filmes, os gêneros e suas definições e hierarquias, os diretores, os clássicos, as novidades, os eventos, os melhores sites, blogs, listas de discussão, comunidades do Orkut, as mais ativas produtoras independentes e seus membros etc.

Com a entrevista observamos que por terem sido alçados por diversos pesquisadores como super-heróis que quebraram as hierarquias culturais, os fas de trash delimitam limites, onde determinam quem consome ou não esse “lixo cultural” e também o que pode ser ou não considerado objeto trash. Uma das perguntas feitas aos entrevistados autointitulados “fas de trash” era: O programa do Ratinho é trash? A resposta de muitos era que sim, poderia ser trash caso fosse interpretado sabendo da sua ma produção, mas o que podemos ressaltar é que há diferentes formas de interpretação, e para que não seja levado a serio é preciso interpretar de forma inteligente, caso contrario tudo parece real.

Considerados ruins para o publico mainstream e reutilizados pelo publico trash, sempre passando do não aceitável para um objeto de mérito. Tudo isso é tido de maneira bem humorada e apolítica de encarar a sociedade que valoriza a estética acima de tudo. Comparamos o publico trash como o Dandi pós moderno que não busca a alta cultura, mas entrega-se aos prazeres da cultura massiva

Dandi era rico em capital cultural. Possuia uma vida de aparências, tinha bom gosto e não misturava-se com a massa. O dandi pos moderno também é rico em capital cultural, mas sabe transitar entre as massas com ar superior, onde passa a consumir o “lixo cultural” de forma elegante, que é a sensibilidade camp da atualidade. Entre a dicotomia do que è incorporado e do que é subjetivado é que surge a figura outsider, que é quando o sujeito não possui conhecimento algum, mas freqüenta os mesmos locais sem ter conhecimento suficiente. Bourdieu argumenta que a falta de familiaridade, a ausência de capital cultural fica evidente no próprio comportamento do indivíduo, na maneira como ele age, em seus movimentos… Quando existe familiaridade com os estilos e gêneros valorizados socialmente, os indivíduos podem manejá-los com desembaraço em qualquer oportunidade.

O publico trash busca da contestação pelo desacordo de certos parâmetros. E com isso mostrar que a sociedade tem sido moldada a pensar e recriar a partir dos meios de massa, criando uma sociedade que pensa e age da mesma forma. Quem não entende o poposito da cultura trash a condena por ser uma estética exagerada associam a produções ignorantes, sem mesmo saber que burros e ignorantes são eles mesmos, por não entenderem o espírito da coisa, essa é a causa do por que ótimas produções trash não fazem sucesso.
Alem da maioria não compreender, a produção nacional de trash movies é pequena. Os fas reclamam do preconceito com filmes brasileiros, que é muito grande e contestam que somos americanizados por isso não valorizamos a obra do autor. Para que essa subcultura exista, é necessário que permaneçam essas desaprovações, pois é isso que os diferencia e pode ser exemplificado, segundo o depoimento de um fa que disse: “qualquer coisa underground que ganhe espaço não é mais underground”. Graças ao camp, o publico considerado da alta cultura que não misturava-se como Dandi, continua possuindo seu capital cultural, sem deixar de transitar de forma intelectual e desfrutar dos prazeres massivos a partir de outro entendimento.

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