A pesquisadora Mayka Castellano analisa em seu artigo “Distinção pelo mau gosto e estética trash” a transformação de produtos considerados de baixa qualidade artística em marcas de autenticidade e de distinção cultural, demarcando inclusive como esse consumo está associado à consciência da má qualidade dos produtos.
A comunidade de fãs que cultua esses produtos rechaçados pelo mainstream, considerados de qualidade inferior e “inassistíveis” apresenta uma forma de fruição muito próxima ao camp. Ou seja, essas pessoas que consomem os produtos com estética trash têm consciência de que algo pode ser bom mesmo sendo muito ruim.
A fim de analisar esse fenômeno a pesquisadora realizou um levantamento com um grupo de consumidores fãs de filmes de horror e seus diversos subgêneros que materializasse a ideia de “pessoas que gostam de coisas ruins”.
A partir daí a pesquisadora aponta uma discussão teórica sobre hierarquias culturais, apontando como alguns gostos são mais valorizados que outros e como certas atitudes ajudam os grupos a obterem prestígio no convívio social. Para Bourdieu, a posse do capital simbólico (cultural) é o principal fator de distinção dentro da sociedade. Segundo o autor, o consumo passa a desempenhar um papel central na criação e na manutenção de relações sociais de dominação e submissão. A autora Sarah Thornton pensa no conceito de capital subcultural, que se aplica a desenvoltura ao lidar com as práticas da sociedade de consumo fugindo do comportamento considerado normal do mainstream.
Nas entrevistas e análises realizadas pela pesquisadora pode-se perceber que os fãs de trash apresentam limites de quem pode ou não consumir o “lixo cultural”. Mayka relata que ao perguntar aos entrevistados se o programa de TV Ratinho era trash, percebeu um certo esforço por parte deles para expressar que consideravam sim o programa como trash, desde que as pessoas que o assistissem também achassem o mesmo, se elas não o levassem à sério. Assim, produtos considerados ruins pelo público mainstream são reapropriados por pessoas que conseguem fruir isso de maneira distinta e até mesmo atribuir mérito a eles.
Para reforçar essa ideia da reapropriação e apreciação consciente dos produtos trash, a pesquisadora retoma uma relação feita pela ensaísta Susan Sontag, que compara o atual fã da estética trash com uma espécie de dândi pós-moderno, um sujeito identificado por possuir capital cultural superior que consome certas porcarias porque o faz de forma distinta.
Então, no consumo da cultura trash, o capital subcultural se dá não pelo fato de gostar ou assistir filmes dessa estética, mas sim na forma como isso é feito. É necessário que fique bem claro a intimidade com a estética trash e com os gêneros específicos. Para justificar o interesse e também o mérito do consumo trash, o fã identifica um ideal subversivo e de contestação dos valores difundidos pela cultura de massa. Ou seja, a audiência trash coloca-se como uma força contestadora, já que considera que o consumo dos produtos trash representa um tipo de resistência, que se coloca em desacordo com padrões pré-estabelecidos.
A pesquisadora constata a contradição como uma das principais marcas do consumo desta subcultura. Se ao mesmo, nos materiais reunidos por Mayka existe uma divulgação de filmes que pede para que os fãs não se levem a sério, por outro lado o comportamento dos fãs expressa outro sentido. Para esses consumidores, as pessoas que não gostam de filmes trash são ignorantes, burras e sem capacidade para entender a “alma do negócio”. No entanto, se a audiência em geral passa a aceitar o trash, logo esse consumo sai do underground, vira moda e, portanto, perde seu valor e seu ideal de autenticidade.
Estética trash e a dinâmica de distinção
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